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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

VISLA | Conversa entre Mudd the Student e Parannoul sobre o álbum 'LAGEON'

  Esta entrevista é de propriedade de Visla, feita em 27 de Novembro de 2025, nós apenas traduzimos, sendo assim com todos os créditos dados a eles.

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Mudd the Student (daqui em diante referido como Mudd), do Balming Tiger, finalmente lançou seu primeiro álbum de estúdio, 'LAGEON'. Ele, que aprendeu sobre o mundo através da internet no interior de Gijang, em Busan, organizou em 14 faixas as diversas emoções — como confusão, expectativa, perda e crescimento — que enfrentou ao se mudar para Seul e fazer da música sua profissão. Punk, hip-hop e música eletrônica se misturam de forma desordenada, algo que Mudd descreve como uma "falta de raízes". Ele afirma que essa é, na verdade, a explicação mais precisa para a maneira como a geração da internet tem vivido. 

Quem melhor pode mergulhar profundamente no mundo de um artista é outro artista que compartilha dos mesmos dilemas. Por isso, esta entrevista decidiu olhar para Mudd de forma profunda a partir de uma outra perspectiva. Parannoul, que participou como artista convidado na faixa "Active now" do álbum, atuou diretamente como entrevistador. 

A entrevista e a sessão de fotos foram realizadas na casa de Hong Chan-hee, diretor visual do Balming Tiger. Como esperado de dois artistas que mantêm interações frequentes no dia a dia, a conversa não precisou de nenhum aquecimento. Vê-los conversando enquanto compartilhavam suas playlists de vez em quando permitia presumir o profundo vínculo que possuem. Embora haja apenas um ano de diferença de idade entre eles, o diálogo fluiu naturalmente como um bate-papo entre amigos próximos, o que talvez tenha permitido conhecer a história de Mudd de forma ainda mais sincera. Agora, acompanhe abaixo a conversa e a música dos dois.


Parannoul: Olá. Como você tem passado, Mudd?
Mudd: Eu tenho passado bem.
Parannoul: O que você comeu hoje de manhã?
Mudd: A comida coreana que comi com você foi a minha primeira refeição do dia.



Parannoul: Sinto que este álbum está bem mais maduro, tanto no som quanto nas letras, em comparação com o seu trabalho anterior, 'Field Trip'. O quanto você acha que mudou daquela época para agora?
Mudd: Naquela época, eu realmente fiz as coisas sem pensar muito. Não é que hoje eu seja completamente diferente, mas aquele foi um período em que eu estava construindo minha identidade musical. Para mim, foi uma espécie de puberdade. Tinha tanta coisa que eu queria fazer e tantas coisas que estava tentando pela primeira vez, que eu estava simplesmente bitolado e me divertindo muito com aquilo. Então, de certa forma, sinto que aquele álbum foi como um "estudo", onde experimentei várias coisas.
Por isso, o valor dele para mim foi o fato de ter tentado aquelas coisas. Pessoalmente, é um álbum que considero um estudo. Eu saí testando tudo o que achava que era bom ou que conseguia fazer. Se naquela época eu focava mais nos instrumentos ou nos métodos que usava, sinto que agora usei essas coisas como um meio para transmitir minha mensagem de forma eficaz.
Parannoul: Entendi, as prioridades se inverteram. Você mencionou que agora consegue distinguir o que faz bem do que não faz bem. Então, o que você acha que faz de melhor?
Mudd: Se eu tivesse que falar sobre a força da minha música, acho que é a capacidade de me aproximar das pessoas sem barreiras, através da mensagem que quero passar. Houve momentos em que me senti verdadeiramente despido. Tenho pensado constantemente sobre como atrair o ouvinte para o meu mundo, e acho que fiquei muito melhor nisso do que antes.
Parannoul: Você cresceu. Dessa vez, no álbum, você faz a maior bagunça usando guitarra elétrica em cima de batidas eletrônicas. Acho que isso é algo que não existia antes, então pode soar um pouco complexo ou difícil para os ouvintes. Tudo bem para você?
Mudd: Esse era exatamente o ponto que eu fazia questão de trazer desta vez. Eu queria misturar as coisas dos anos 90 que eu amo com o que me influencia hoje em dia.
Aquela crueza não lapidada, típica das bandas indie dos anos 90, e os sons de baixa fidelidade (cheap sounds) que as pessoas hoje acham superficiais. Sabe, coisas que o público pode considerar "baratas". Eu acredito que, na música, pelo menos, não existe isso de caro ou barato. É apenas uma percepção diferente para cada pessoa que a recebe. Os conteúdos de hoje são muito voláteis. Eu ando um pouco imerso nisso e quis misturar esse sabor do "instantâneo" com a sensibilidade dos anos 90.
Então, para mim, esse era um ponto muito interessante e, ao mesmo tempo, uma parte bem difícil. De certa forma, este trabalho foi (pelo menos para mim) a harmonia entre o que já era familiar e o que já era familiar. Se você analisar separadamente, todos são ingredientes conhecidos, mas acho que eu estava ansioso pela sinergia que surgiria ao juntá-los.



Parannoul: Entendi. Acho que deu certo, não? Este álbum tem 14 músicas e uma duração total de 39 minutos. Você tem planos de compor uma música longa no futuro? Tipo, uma que mude de seção várias vezes ou que passe dos 10 minutos?
Mudd: Eu tentava muito esse tipo de coisa quando tinha uns 19 anos, na época em que fazia mixtapes. Eu costumava emendar várias músicas para criar uma narrativa. Na verdade, esse estilo ainda é o meu preferido hoje em dia, mas este álbum foi construído com uma estrutura totalmente de ômbus. Cada faixa tem sua própria história e, quando se juntam, formam um grande bloco. Se você olhar para o álbum em si como uma única música, ele já é uma grande obra. Por isso, não senti que precisava de uma música longa específica ali dentro.

Parannoul: Não sei qual era a sua intenção original, mas, para mim, o álbum se divide claramente em antes e depois com base na faixa "Phoenix" (불사조). O ritmo e o equilíbrio geral ficaram muito bem controlados. Teve algo em que você prestou mais atenção na hora de montar a ordem das faixas (tracklist)?
Mudd: Eu decidi a tracklist junto com o JNKYRD e o San Yawn depois que quase todas as músicas já estavam prontas. Em termos de fluxo, o que eu gosto é do efeito "doce e salgado". Uma estrutura onde surge uma faixa mais atmosférica e, de repente, brota uma música super radical.


Parannoul: Qual é o significado dos interlúdios?
Mudd: Na verdade, não foi algo planejado. "(behringer angel)" e "(210418_5)" são os interlúdios, e ambos eram para ser músicas completas originalmente. Mas "(behringer angel)" tinha uma letra e uma atmosfera muito deprimentes, e "(210418_5)" eu fiz porque queria criar algo no estilo da Taylor Swift, mas ficou brilhante e alegre demais para o tom deste álbum. Por isso, acabei tirando as duas. Só que, depois que o álbum ficou totalmente pronto, senti que o fluxo quebrava em alguns momentos. Pensei: "Ah, vou precisar de interlúdios de qualquer jeito". Foi aí que coloquei essas duas músicas de volta. O papel delas não é carregar uma mensagem, mas sim funcionar como uma vírgula para conectar o fluxo. São faixas que servem para o ouvinte recuperar o fôlego.
Parannoul: Foi uma boa decisão. Também precisamos falar sobre as participações especiais (feat.). Pessoas bem inesperadas participaram, inclusive eu. Teve algum episódio marcante no processo de convite?
Mudd: Eu achei que, se conduzisse o álbum inteiro apenas com a minha voz, o ouvinte poderia ficar um pouco cansado. Pensei que seria bom ter vozes novas entrando de vez em quando para dar um frescor. Você era a minha prioridade número um porque achei que era a pessoa que melhor conseguiria expressar a mensagem geral do álbum. Veio à minha mente de forma muito natural, e sou muito grato por você ter expressado isso tão bem em "Active now".


E "that same street" é uma faixa de vocaloid screamo. Achei o som muito atraente, bem com a sua cara. Essa faixa tem uma pegada muito forte de noise hardcore punk. Quando entramos em contato para o feat. e fui ao Japão gravar o clipe de "Undertaker", ele fez questão de ir pessoalmente e até apareceu no vídeo.

Sobre o Harto Falión, por causa daquela minha ambição de misturar épocas que mencionei antes, eu fazia questão de colocar pelo menos um rapper do SoundCloud. Ele é do Surf Gang, um coletivo baseado em Nova York, que foi um grupo que me influenciou muito sonoramente. O que o diferencia de outros rappers é que ele escreve letras de forma muito séria. Tive a chance de conhecê-lo quando ele veio à Coreia, e ele é uma pessoa extremamente profunda. A faixa em que ele participou, chamada "Rat", tem o som mais bruto e agressivo do álbum, mas a letra em si não é nada disso. Sou muito grato a ele por ter escrito uma letra tão boa.
Parannoul: Que legal. Como você disse antes, a ordem das faixas foi montada só depois que todas as músicas estavam prontas. Então, no fim das contas, a estrutura das faixas deste álbum é totalmente de ômnibus, certo?
Mudd: Exatamente. Seja eu falando diretamente da minha própria história, pegando emprestada a voz de outro narrador ou observando e relatando algum fenômeno, todas parecem histórias que correm de forma independente, mas, no final, a mensagem que quero passar é uma só.



Parannoul: Quem é o "você" de quem você fala na letra de 'Best Thing'?
Mudd: Há muitos narradores e alvos fictícios que criei ao longo do álbum inteiro. Costumo usar bastante a ficção como um recurso para transmitir as minhas histórias. O "você" mencionado em "Best Thing" também pode ser visto como um alvo fictício que eu configurei. É um pouco engraçado tentar definir isso detalhadamente, mas a ideia é de um parceiro romanticamente instável mentalmente, e, através das palavras que dirijo a ele, expressei a dor e o cinismo que eu queria transmitir.

Parannoul: Você mencionou que vivemos em uma "geração sem raízes". Qual você acha que é o motivo disso?
Mudd: As culturas ou estéticas que eu gosto e consumo, no fim das contas, são todas coisas do passado. E eu estou sendo influenciado por esse fluxo onde o passado continua sendo reproduzido no presente. Por exemplo, eu coloquei elementos parecidos com noise rock neste álbum, mas esse é um gênero que já foi construído e encerrado nos anos 90. E eu nem sequer sou uma pessoa que nasceu nessa época. Mesmo assim, peguei emprestada grande parte da estética dos anos 90 para o álbum. Olhando por esse lado, tudo o que estou fazendo, se formos seguir critérios rígidos, não tem raízes.
Seja misturando elementos de música eletrônica ou trazendo elementos de dance music, acho que todas essas tentativas já existiram e já foram feitas no passado. Além disso, as obras dos anos 90 tinham muitos resultados realmente intensos por causa daquela sensibilidade de fim de século, e eu tive acesso a tudo isso através de um smartphone. Eu construí minha identidade no meu quarto, lá no interior de Gijang, em Busan, ouvindo músicas de artistas como a Arca e pensando "uau, que incrível, vou tentar fazer isso também". Isso não foi algo que meus pais me ensinaram, nem veio da cultura regional; foram apenas informações que consegui inteiramente de dentro de um smartphone. Por isso, sinto na pele que realmente vivo em uma geração sem raízes, e quis expressar isso neste álbum.
E eu não tenho vergonha disso, e nunca disse que isso é algo ruim. Só que, para as pessoas que nasceram em épocas passadas, nós devemos parecer muito estranhos. Afinal, nós temos contato com toda e qualquer cultura pelo celular e podemos escolher o que quisermos. Seja escolher a cultura kawaii japonesa, o gabber, ou, no meu caso, o rock dos anos 90, são todas identidades construídas através de escolhas feitas dentro de um smartphone.


Parannoul: Mas então essa própria "falta de raízes" não passaria a ser um novo sentimento de pertencimento? Assim como plataformas tipo o Discord. Nos anos 90, existiam pequenas comunidades offline criadas por pessoas que frequentavam lojas de discos, e hoje tenho a impressão de que essa estrutura simplesmente se mudou para o ambiente online.
Mudd: Sim, com certeza. Mas há uma diferença clara aí. Garimpar LPs ou CDs pessoalmente e consumir música por um smartphone são experiências totalmente diferentes. Hoje em dia, até crianças do ensino fundamental ouvem música pelo smartphone. Mas para uma criança ir comprar um CD ou LP, a barreira de entrada é altíssima. Ela precisa ter o sentimento de "gostar" de música, precisa ter um tocador, precisa pensar em qual música escolher... Enquanto hoje, nós vivemos em uma era de exposição indiscriminada à informação.

Parannoul: Vivendo na geração da internet, é impossível não falar sobre os algoritmos. Se antigamente os DJs ou as paradas de sucesso guiavam o gosto das pessoas, hoje sinto que o algoritmo reina como se fosse um novo deus. Eu vejo que isso traz grandes efeitos colaterais, mas o que você acha?
Mudd: Como estamos em uma era onde o algoritmo mostra tudo, eu acho que, pelo contrário, gerenciar o seu próprio algoritmo passou a ser uma habilidade. A habilidade de "fazer aparecer" aquilo que você quer ver. Antigamente, o ambiente ao qual eu pertencia — fosse o clube da escola ou os amigos com quem eu andava — moldava o meu ambiente natural como pessoa. Hoje, o tipo de ambiente de internet que você constrói se tornou uma forma crucial de formar quem você é. Há informação demais na internet, e cabe a cada um escolher o que extrair dali.
Parannoul: Acho que os algoritmos pós-internet trazem tanto ganhos quanto perdas, mas, a curto prazo, os ganhos parecem maiores. Porém, a longo prazo, é como você disse: dá uma sensação de que precisamos viver deixando o cérebro de lado, por assim dizer. O algoritmo hoje em dia se comporta de forma bem boazinha. Por exemplo, existe essa ilusão amplamente difundida de que "se até uma pessoa desconhecida for escolhida pelo algoritmo, ela pode fazer sucesso". E realmente existem muitos casos assim.
Mas você conhece a "Teoria da Internet Morta"? Hoje já existem muitos IA misturados nos comentários por aí. E eles estão ficando cada vez mais indistinguíveis dos humanos. Com isso, chega um ponto em que você não sabe se a pessoa com quem está conversando é um humano de verdade ou uma IA. O mais assustador é que podemos chegar ao ponto de não saber se o ouvinte que está escutando a minha música é uma pessoa real ou uma IA.
Nos anos 90, para criar uma comunidade, você tinha que obrigatoriamente ir para o mundo offline, mas hoje as pessoas fazem isso online, têm o suficiente e já se dão por satisfeitas. Por causa disso, sinto que, feito sapos em água fervendo, seremos cercados por IA enquanto centenas de comunidades próprias vão surgindo para cada um.
Mudd: Que assustador. Mas bem, de qualquer forma, se a própria pessoa estiver satisfeita, não está tudo bem? Isso tiraria o sentido da vida?
Parannoul: Estar satisfeito está bem. Mas se tudo terminar na "satisfação", não sumiria o motivo para querer divulgar isso para os outros? Eu acho que o significado da cultura pop, no fim das contas, se completa ao mostrar algo para alguém e receber um feedback em troca. Mas se esse feedback vier de uma IA, é meio vazio, não acha?
Mudd: No fim, as pessoas vão acabar pensando "ah, é só uma IA mesmo" e os sentimentos vão desaparecendo aos poucos. Afinal, todo mundo costuma agir de forma fria com o ChatGPT.

Parannoul: Deixe-me mudar um pouco a pergunta. O que você quer dizer para os ouvintes com este álbum?
Mudd: O que o álbum quer dizer, no fim das contas, é sobre a internet e eu. Seja falando de forma indireta ou direta, são todas histórias minhas. Expressei as emoções pelas quais passei através do meu próprio estilo de arte. Acho que a época em que fiz este álbum foi um período emocionalmente bem difícil para mim. Não havia um motivo claro, mas eu simplesmente estava assim. Foi quando pensei pela primeira vez: "Ah, preciso fazer um álbum".
Depois de ir em turnê com os membros do Balming Tiger, a gente desembarca na Coreia, em Incheon. No caminho do Aeroporto de Incheon para casa, olhei para fora da janela e o mundo parecia tão acinzentado. No exterior, o céu era incrivelmente azul. Então vários pensamentos começaram a surgir. Pensei que, mesmo naquele exato momento, haveria estudantes trancados em seus quartos estudando, alguém estaria deprimido e esmagado pelo trabalho por causa de dinheiro, alguém estaria pensando em suicídio... No momento em que cheguei à Coreia, a sensação foi de que tudo voltou à realidade. Pensei que queria capturar essa emoção.
É uma experiência especial que só eu posso contar e, ao mesmo tempo, pode ser uma história muito comum para outra pessoa. Acho que eu só queria falar sobre o "eu de agora".
Parannoul: Você misturou várias angústias. Você também está ativo como membro do Balming Tiger. Como acabou de dizer, isso serviu inclusive como o ponto de partida para este álbum. Não foi difícil conciliar as atividades do grupo?
Mudd: Sinceramente, acho que a última vez que trabalhei de forma realmente intensa na minha própria música foi em 2019. Aquela foi uma época em que eu realmente extravasava tudo, mas, desde então, quase não tive tempo ou espaço mental para mergulhar na minha música. Conheci o Balming Tiger, vim para Seul, trabalhei em empregos de meio período vivenciando a sociedade pela primeira vez, fui me encontrando, debutei e continuei ficando cada vez mais ocupado. Eu não tinha tempo. Com isso, acho que o desejo de alcançar a minha autorrealização foi crescendo cada vez mais.
Ao mesmo tempo, como o Balming Tiger estava sempre ocupado, eu mantinha uma vontade constante de fazer minha música, nem que precisasse cavar um espaço entre os compromissos para isso. Na verdade, eu sentia que as histórias contadas no grupo e as coisas que eu queria dizer com a minha própria música tinham nuances um pouco diferentes. Hoje em dia não é mais assim, mas antigamente acho que levei um tempo até me adaptar completamente à música do Balming Tiger.
Eu tinha muita preocupação sobre: "Será que consigo mostrar até o meu lado mais despido?". Por isso, mesmo estando ocupado e com a cabeça cheia, o momento de fazer música era o mais divertido de todos. É verdade que foi bem difícil na fase de pós-produção, quando os trabalhos se acumularam e fiquei atarefado demais, mas o processo de criação em si foi maravilhoso, porque fazia tempo que eu não conseguia me concentrar de forma tão profunda no meu próprio mundo.

Parannoul: Que bonito. Pensando bem, você me mostrou um pouco da arte do álbum tempos atrás, não foi? Fiquei muito impressionado. Como vocês chegaram àquela estética desorganizada?
Mudd: Tem um artista que mora nos Estados Unidos chamado Pang Chiu Cowboy (@pangchiucowboy). Quando você olha para as ilustrações dele, dá para notar uma forte influência da internet, e ele tem o poder de elevar aquela "sensibilidade cheap" que eu mencionei antes ao patamar de arte. É uma abordagem que mostra a textura do jeito que ela é, sem ornamentos, e eu me senti muito atraído assim que a vi. Eu sempre gostei de ilustrações com um tom mitológico. Por exemplo, aquela capa da coletânea do Pavement que tem um dragão, eu adoro aquilo; e existem estilos parecidos em álbuns do Sufjan Stevens ou do Alex G também. O Hong Chanhee me apresentou a esse artista e, por sorte, pudemos trabalhar juntos, o que me deixou muito feliz.
Eu organizei minhas letras e o contexto de fundo e enviei para ele, que desenhou algo que se encaixou de forma surpreendentemente perfeita. Até a informação de que eu morava perto da praia foi parar na capa do álbum. O mar se estende por toda a parte traseira e, por mais engraçado que pareça, embora seja um álbum que fala sobre a internet, a mídia física e os videoclipes carregam uma nostalgia da minha terra natal. Foi maravilhoso poder traduzir isso até na capa do álbum. Quando penso no bairro onde eu morava, sinto que ele existe em sintonia com a música. Era um bairro que parecia uma página em branco, mas as músicas que eu ouvia naquela época deram cor àquele espaço, por assim dizer.
Eu quase não tinha vida social e não tinha muitos amigos, mas a memória de caminhar sozinho ouvindo música permanece viva na minha mente de um jeito estranho há muito tempo.

Parannoul: Que tipo de música você ouvia naquela época?
Mudd: Eram tantas que não lembro de todas, mas as faixas que eu ouvia enquanto caminhava pelo condomínio de prédios continuam comigo até hoje. Uma que me veio à mente agora foi "Dirty Computer" da Janelle Monáe, e eu ouvia muito Bon Iver naquelas ruas. Também escutava bastante Grimes... E me lembro de Kanye também.

Parannoul: Como a música é um meio sensorialmente mais limitado do que o cinema ou os livros, acho que ela acaba sendo muito mais influenciada por elementos secundários, como o ambiente ao redor.
Mudd: Acho que você está coberto de razão.

Parannoul: Teve algum outro candidato a título além de [LAGEON]?
Mudd: Havia um título provisório, mas sinceramente tenho muita vergonha e não consigo falar. Aí eu mudei para uma palavra que só eu conheço o significado. Minha mãe teve algumas lojas, e o nome de uma delas era "Lajeon" (라전), então eu peguei esse nome. Na verdade, não tem um grande significado. Eu escolhi porque a sonoridade parecia um pouco mitológica e atraente, e também por ser uma palavra carregada de nostalgia ligada à minha adolescência — a época em que eu alimentava meus sonhos ouvindo música.

Parannoul: Que legal. Não dá para deixar essa pergunta de fora: quais artistas influenciaram você?
Mudd: Muitas pessoas me vêm à mente. Como eu disse antes, tanto o som do rock alternativo dos anos 90 quanto as músicas que saem da internet hoje em dia me influenciam. Por exemplo, fui bastante influenciado por alguns rappers jovens que estão em ascensão hoje, e ouvi muito artistas como o xaviersobased ou o Surf Gang, do qual o Harto Falión (que mencionei antes) faz parte. E uma das minhas bandas favoritas é My Bloody Valentine, então a influência deles dispensa comentários.
Além disso, faixas como "APA freestyle" receberam muita influência de Black Flag. Já "Best Thing" é uma faixa que considero fora da curva por ser minimalista em comparação ao restante do álbum. Essa foi uma música com a qual quebrei muito a cabeça até o final, a ponto de não ter conseguido terminar o arranjo até o momento de passar para a mixagem. Originalmente, ela tinha muitos instrumentos e era um noise rock de ritmo acelerado. Mas, quando ouvi de novo, senti que a emoção da letra não estava sendo transmitida direito. Achei a música delicada, mas o som estava exagerado e disperso.
Então eu e o JNKYRD quebramos a cabeça juntos para refazer o arranjo do zero. Naquele momento, ele me mostrou um disco chamado 'Title TK', do The Breeders, e esse álbum tem um som genuinamente minimalista. Especialmente a música "Off You", que tem apenas uns três ou quatro instrumentos, mas é tão limpa e, ao mesmo tempo, experimental e tocante.
Ao ouvir aquilo, decidi: "Vamos fazer uma música simples a esse ponto". Por isso, continuei mexendo no arranjo até a véspera da mixagem e, no fim, a música que ganhou vida nessa direção foi "Best Thing". Então dá para dizer que também fui influenciado pelo The Breeders, embora, antes disso, eu só gostasse das músicas mais famosas deles, como "Cannonball", e não as ouvisse tão a fundo.